Ladrão de Sonhos (1995)

A Cidade das Crianças Perdidas

A criatividade de Jean-Pierre Jeunet parece não ter limites ao criar mundos fantásticos em sua surrealidade e estranheza, ainda mais no período em que tinha Marc Caro como parceiro. Com uma ambientação semelhante à de “Delicatessen” (outro longa produzido pela dupla), Ladrão de Sonhos (La cité des enfants perdus) parece algo como uma visão moderna do ambiente criado no filme “Brazil”, de Terry Gillian, porém enquanto este último funcionava também como uma crítica à burocracia excessiva em nossa sociedade e o controle e utilização de informações de forma dominadora por um sistema ditatorial, o filme de Jeunet serve mais como exercício visual, uma viagem por um mundo de sonhos e pesadelos, esteticamente impressionante com suas fortes tonalidades de cores e contrastes.

Em uma torre no meio do oceano e cercada por um labirinto de minas aquáticas residem um cientísta que não consegue sonhar, uma anã, um cérebro “vivo” dentro de úma espécie de aquário e seis clones do “criador” de todos eles, que abandonou o lugar após perceber que todas suas criações resultavam desastrosas. Na esperança de curar seu mal, o cientista tenta roubar os sonhos de crianças que são raptadas e lavadas à torre, daí vem a desastrosa escolha para o infeliz título nacional do filme.

A história acompanha One, uma espécie de “gigante-não-muito-inteligente” interpretado por Ron Perlman, na busca por seu pequeno irmão adotivo que, assim como outras crianças da cidade, desapareceu nas mãos de estranhos seres conhecidos como “cyclops”. Para tal, One conta com a ajuda da jovem garotinha de rua Miette (Migalha), vivida pela absolutamente cativante Judith Vittet, que acaba desenvolvendo um amor pelo “gigante” que rivaliza com a pequena Matilda de “O Profissional”.

Apesar de diversos outros personagens excêntricos que povoam a cidade, os clones do “criador” interpretados pelo colaborar habitual de Jeunet, Domique Pinon, merecem destaque. Pinon possui uma capacidade incrível de utilizar suas caretas e expressões exageradas de maneira extremamente hilária, colocando as passagens com esses personagens entre algumas das melhores do longa.

Ainda que a estética de Ladrão de Sonhos se torne excessivamente plástica em determinados momentos, o filme é belíssimo e mesmo em suas situações mais grotescas podemos admirar a beleza do visual criado pelos dois imaginativos magos franceses.

Mais um filme altamente recomendado para aqueles que se cansaram um pouco dos enlatados despejados atualmente nas prateleiras das lojas e locadoras.

Avaliação: 4/5